Depois de renegar a ideia durante anos, a Ferrari rendeu-se à realidade e vai mesmo fazer um SUV. Heresia ou apenas negócio?

Foi a última! Ainda no ano passado a Ferrari afirmava pela boca do seu presidente, Sergio Marchionne, que não iria fazer nenhum modelo de quatro portas, muito menos um SUV. Mas a realidade do mercado é demasiado evidente para que, aquela que é a marca com maior valor no mundo, em termos de imagem, continue a ignorar o que se passa à sua volta. Sim, a Ferrari vai mesmo fazer um SUV!... Tal como a Bentley já o fez, a Rolls-Royce já o deu a entender, a Lamborghini tem andado a preparar e até a Aston Martin já confirmou. De fora, para já, fica só a McLaren. Faltava a Ferrari, mas a casa italiana, bem ao seu estilo, pôs a circular a notícia este mês, através de um grupo internacional de jornalistas escolhidos a dedo e com um nível de detalhe que mostra estar o projeto bem adiantado, pois até já tem nome de código interno: F16X.

Pelo que se sabe, vai partilhar uma nova plataforma em alumínio com o futuro GTC4 Lusso, que será lançado em 2020. O SUV F16X chega no ano a seguir e deverá ser o primeiro Ferrari de grande produção a ter um propulsor PHEV, ou seja, híbrido recarregável. O motor base será o V8 Turbo de 3,9 litros, acoplado a um motor elétrico e uma bateria com capacidade de fazer andar o F16X apenas em modo elétrico: um Ferrari que não faz barulho, outra heresia?

Ainda não foi mostrado nenhum desenho oficial do que poderá ser o aspeto deste SUV da Ferrari, mas não será de esperar nada de radical. Neste segmento, nenhum construtor arrisca sair do formato convencional, os que arriscam demoram mais tempo entre o anuncio da ideia e a chegada ao mercado. Veja-se o caso do Lamborghini Urus, que se tem vindo a arrastar desde que o primeiro “concept-car” foi revelado em 2012 e que deverá estar à venda, finalmente, em 2018. É muito possível que o F16X siga o conceito estreado por este rival da Lamborghini, de que aliás colherá frutos, pois o choque de uma marca italiana de superdesportivos entrar nos SUV, já foi dado pela marca do touro. Assim, é mais do que provável que o SUV da Ferrari se inspire no desenho da frente do próximo GTC4 Lusso, que não será radicalmente diferente do atual, e depois apresente um habitáculo de quatro portas como o de todos os SUV, talvez com um perfil ligeiramente coupé.

Mas se a Lamborghini fez os possíveis e os impossíveis para relembrar que, no passado, até já tinha feito um TT, o monstruoso LM002 dos anos oitenta e, portanto, tinha uma legitimidade histórica para “regressar” aos SUV, a Ferrari não tem nada parecido a que se agarrar, na sua história. Aliás, Enzo Ferrari até chamava camiões aos Bentley, só porque eram grandes.

Mas voltemos à realidade. E a realidade é a contínua subida de vendas dos SUV, em todos os segmentos. E a moda não está para acabar. Com o inicio da comercialização do F16X, a Ferrari já deixou saber que a sua produção anual vai duplicar, em relação aos valores atuais, que andam na casa das sete mil unidades por ano. Mais outra heresia, pois a marca sempre disse que não fabricava mais, para manter a exclusividade. Isso quer dizer que, a partir de 2021, metade dos Ferrari vendidos vão ser SUV, ainda longe da quota que este tipo de veículos tem na Porsche, e muito longe do volume que a casa alemã consegue vender. Ou seja, não vamos passar a ver um F16X a cada esquina, assim como hoje não vemos um dos atuais Ferrari. Mas vamos vê-lo mais vezes que aos seus irmãos desportivos, pelo simples facto de ser um modelo adaptado a um tipo de utilização diário. Provavelmente, quem o comprará vai continuar a ser o cliente que já tem um Ferrari desportivo e agora vê a hipótese de poder levar a família toda a passear, também de Ferrari. CR7, estás na lista de espera?... Ainda vamos longe da discussão da taxa de conquista de clientes a outras marcas, mas com um preço estimado de 300 000 euros, não é provável que muitos consigam trocar o seu Audi Q7 ou BMW X5 por um F16X.

Depois, vão sempre indignar-se com esta “traição” alguns fundamentalistas da Ferrari, apaixonados pela história e imagem da marca, mas a maioria esmagadora sem capacidades económicas para sonhar em comprar um Ferrari SUV. Por outro lado, os compradores chineses, com vontade de mostrar que estão bem na vida, até já devem estar a passar cheques em branco aos concessionários da marca italiana, para garantir um lugar na fila.

No final das contas, a Ferrari acaba por fazer a mesma coisa que a Porsche anda a fazer há muitos anos: ganhar dinheiro com os SUV e continuar a dar lustro à sua imagem, com os desportivos. É tudo uma questão de negócio.

Assine Já

Edição nº 1460
Já nas bancas

Digital Papel

Top

Os mais recentes