Sandro Meda

Conhece aquela... ?

Também deve conhecer uma história semelhante. Há uns anos, uma daquelas personalidades que diz fazer muitas coisas na vida, surgia frequentemente em ações relacionadas com o automóvel dirigidas a um público alargado de imprensa, especializada ou generalista, e a curiosos em geral que por alguma razão apareciam em apresentações de modelos, produtos, serviços, marcas ou empresas. Com uma veia de “entertainer” e discurso leve, o indivíduo cativava a atenção da mesa nos tradicionais almoços, tomando a iniciativa da conversa numa hábil fusão entre o tema da ocasião, fosse a introdução de uma nova marca automóvel ou o lançamento de massa consistente, e a sua área específica de “conhecimento” automóvel, normalmente histórica, quase sempre em estória... Ele seria capaz de jurar que o mais antigo modelo dessa marca tinha pneus com borracha do primeiro lote extraído na Malásia; ou que aquela massa consistente tinha ajudado Nicu Grigorașa conquistar o campeonato de ralis em 1981. A globalidade dos ouvintes acenaria a cabeça de espanto, entre risadas e alguma crescente admiração por tão vasto conhecimento. Entre esses crentes, durante uns anos, estive eu. Até que, um dia, a personagem abordou e desenvolveu conversa sobre o meu carro de eleição, que eu estudava minuciosamente há meses com autores de referência. Claro que com as primeiras aldrabices, contadas com a mesma convicção de todos os outros “factos”, o moço ganhou, para mim, um rótulo pérfido e falso; talvez fosse inofensivo, provavelmente bem-intencionado por querer entreter, mas só gerou repugnância ao fazer-se passar por algo que nunca foi. É o mesmo sentimento que me suscitam as medidas deste OE apontadas ao automóvel. A insistência numa estória fanfarronada assente em mentiras sem propósito ou objetivo estrutural. A partir daqui será que não podemos questionar quantas das outras histórias, de que nada entendemos, fazem sentido?

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